Casa segura: adaptações diminuem o risco de acidentes com idosos

Casa segura: adaptações diminuem o risco de acidentes com idosos

Chegar a velhice é  inevitável. Um simples tropeço em um tapete ou um escorregão durante o banho podem causar graves lesões, que frequentemente vêm acompanhadas de fraturas e machucados. Mais comuns do que se imagina, os acidentes domésticos correspondem a 75% das lesões sofridas por pessoas com mais de 60 anos no Brasil. A informação vem de um alerta recente emitido pelo Serviço Único de Saúde (SUS).

Este número deve aumentar exponencialmente, já que a tendência é que, até 2050, a quantidade de pessoas nesta faixa etária triplique no país. Diante de uma crise natural, uma das soluções mais acertadas é apostar na acessibilidade e na chamada Arquitetura Universal. O conceito, que se resume em criar alternativas específicas para facilitar a mobilidade em qualquer ambiente, pode diminuir enormemente as mazelas causadas pela chegada da “melhor idade”.

Especialista neste tipo de projeto, o decorador Robson Gonzáles, do escritório Arpa – Arquitetura & Acessibilidade, é um dos muitos que vêm adotando soluções práticas para transformar casas e apartamentos em espaços totalmente à prova de quedas e acidentes. Segundo ele, a implantação das adaptações pode chegar a custar até 25% do preço da obra.

Avaliando a casa

Caso o idoso seja cadeirante ou use andador, é essencial ter portas mais largas que as convencionais (foto: Mostra Arquitetura Universal / divulgação)

Caso o idoso seja cadeirante ou use andador, é essencial ter portas mais largas do que as convencionais (foto: Mostra Arquitetura Universal / divulgação)

Antes de começar o projeto, deve ser feita uma avaliação do imóvel, a fim de identificar barreiras arquitetônicas que possam limitar ou dificultar a circulação do idoso. Uma conversa franca com o idoso sobre as modificações também pode ajuda-lo a se adaptar à nova rotina.

“Tenho uma avó de 87 anos e sei o quanto é difícil para a pessoa idosa aceitar que não consegue mais pegar a travessa pesada com a lasanha ou que remover o tapete da sua casa que o acompanha há 30 anos se faz necessário. Quando fui colocar as barras de segurança no banheiro da casa da minha avó eu ouvi: pra que isso agora? Eu não sou aleijada! E após uma breve conversa a convenci de que seria mais seguro e confortável para ela. Hoje ela não dispensa estes itens de segurança”, contou Gonzáles.

Soluções acessíveis

Embora haja adaptações simples para todos os cômodos da casa, Robson ressalta que a cozinha, o banheiro e a área de serviço devem ser as prioridades, pois, de acordo com ele, são os que têm maior possibilidade de contato do piso com água, facilitando quedas. “Alguns apartamentos novos são entregues pelas construtoras com piso antiderrapante somente no boxe do banheiro, o que é um erro. Estes locais devem ter piso seguro em todas estas áreas”, disse ele.

Cozinha e área de serviço

Além dos eletrônicos, a lavanderia deve ter nichos e gavetas em altura apropriada, que varia entre os 0,8m aos 1,20m

Além dos eletrônicos, a lavanderia deve ter nichos e gavetas em altura apropriada, que varia entre os 0,8m aos 1,20m

Além disso, Robson também destaca o que é essencial para cada cômodo da casa. Nas cozinhas e áreas de serviço, por exemplo, os eletrodomésticos devem estar dispostos dentro de uma faixa de alcance, que pode variar entre 80 cm e 1,20 m, tornando a aplicação da força mais eficiente.

Outro detalhe importante para este ambiente diz respeito às bancadas e armários baixos. “É importante evitar revestimentos escuros ou pretos, pois com a redução da acuidade visual se torna mais difícil encontrar uma faca de cabo preto ou as chaves de casa sobre estas superfícies”, alertou Gonzáles.

Na lavanderia, alguns equipamentos, como o varal elétrico e a máquina de lavar com abertura frontal também podem ajudar a diminuir os esforços. Já o tanque, deve estar em uma altura próxima a 1 m.

Banheiro

Ter barras de apoio em todo o banheiro é essencial para evitar quedas (Arpa arquitetura /divulgação)

Ter barras de apoio em todo o banheiro é essencial para evitar quedas (Arpa arquitetura /divulgação)

O maior causador de quedas em casa, o banheiro, deve receber atenção especial durante o processo de adaptação. “Além do piso antiderrapante, a aplicação de barras de segurança dentro do boxe é muito importante, assim como o uso de uma cadeira de plástico pequena móvel ou fixa na parede, que facilita a higienização das pernas e pés”, falou o decorador.

De acordo com ele, a porta do banheiro, se possível, deve ser substituída por uma com pelo menos 80 cm de largura, pois o uso de cadeira de rodas, muletas ou andadores pode se fazer necessário com o avançar da idade.

A arquiteta Mari Ani Oglouyan aponta outros detalhes que também podem ajudar, como espelhos com regulagem de altura e apoios nas laterais da pia. Segundo ela, os porta xampus também devem respeitar a altura estabelecida, que é de 80 cm a 1,20 m do piso. “Usar lixeiras com sensores também é uma boa ideia para diminuir o esforço”, lembra ela.

Quartos e salas

Se não for possível tirar o carpete da sala, prenda-o com perfil metálico, parafusos ou no mínimo um antiderrapante sob ele (foto: Mostra Arquitetura Universal /divulgação)

Se não for possível tirar o carpete da sala, prenda-o com perfil metálico, parafusos ou no mínimo um antiderrapante sob ele (foto: Mostra Arquitetura Universal /divulgação)

Para os demais espaços, o especialista recomenda que o mobiliário deva estar em uma boa altura para o idoso (acima de 50 cm), pois uma simples dobrar de joelhos pode ser bem complexo. Tomadas devem ser mudadas de lugar, assim como a ordem para o uso dos utensílios domésticos mais comuns nos armários, caso não sejam trocados de lugar.

Móveis baixos e com quinas devem, de preferência, ser trocados, pois em caso de batidas podem provocar ferimentos sérios. Tapetes, objetos soltos e brinquedos dos netos espalhados pela casa também são um risco à segurança da pessoa idosa, então, sempre que puder, retire-os. “Caso seja impossível negociar a retirada do tapete, prenda-o com perfil metálico, parafusos ou no mínimo um antiderrapante sob ele”, afirmou ela.

Para deixar o idoso mais confortável,  Mari Ani sugere reformar o sofá, que deve ganhar espuma mais densa no assento. Ela ainda ressalta que, em caso de cadeirantes, a altura dos estofados precisa ser compatível com a da cadeira de rodas, que é de 95 cm para adultos. “Com uma das peças sem braço, você facilita ainda mais o movimento”, ensina ela. Já para os idosos que andam normalmente, é melhor que a altura de sofás e poltronas fique em torno de 50 cm.

Outro fator que costuma ser esquecido é a iluminação. Segundo Gonzáles, os ambientes devem ter iluminação adequada durante a noite e mesmo durante o dia. “Ter uma arandela que ilumine o caminho entre o quarto e o banheiro traz mais segurança,” concluiu ele.

 

 

Foto de capa: Mari Ani Oglouyan Arquitetura / divulgação

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